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Grupo formado por mulheres artesãs de Porto Murtinho, o Caranday colhe e transforma talos e folhas do carandá em artesanato variado, num trabalho que mudou a vida delas

Cestarias, bandejas, fruteiras e arandelas são confeccionadas a partir do trabalho minucioso e criativo das artesãs de Porto Murtinho

Brasil e Paraguai se encontram no flutuar das folhas do carandá, palmeira nativa da família das arecáceas que chega a alcançar 20 metros de altura em Mato Grosso do Sul, no Chaco da Bolívia e do Paraguai, e na Província de Formosa, na Argentina. Hotéis sul-matogrossenses já usam no café da manhã trilhos de mesa e jogos americanos produzidos com a folha e o talo dessa palmeira por um grupo de 15 artesãs de Porto Murtinho.

Eventos em São Paulo também já mostraram ao público peças de cestaria e cerâmica originárias dessa cidade do sudoeste do estado, a 454 quilômetros de Campo Grande, na fronteira brasileira com o Paraguai. O cotidiano dessas mulheres cada vez mais unidas promove a união do aprendizado de técnicas de tecelagem, cestaria e a comercialização de diversas peças de artesanato na região.

O grupo denominado Caranday reúne mulheres acostumadas a ir de bicicleta até os arredores da cidade para a colheita da folha do carandá. “Elas esperam cair, levam tudo para as oficinas em suas próprias casas e trabalham todos os meses do ano”, conta a coordenadora do Projeto Caranday, a pedagoga Vivian Bacha.

Na loja de Luzia Bitencourt, telhas de cerâmica e fruteiras coloridas custam entre R$ 15 e R$ 20; quadros a óleo com paisagens pantaneiras pintadas por Sérgio Bernal e outros artistas locais variam de R$ 40 a R$ 150. As cestas são vendidas a partir de R$ 30. “As índias Chamacoco (do Chaco Paraguaio) nunca vêm apenas com um ou dois produtos, viajam para cá de barco e sempre trazem novidades”, comenta Luzia.

Estão no grupo: Ana Maria Chaparro, Crislaine Bogarin Cáceres, Francisca Quintana, Gabriela Gonzáles Medina, Gregoria de Lo Santo, Josefa Quintna, Maria Neuza dos Santos Muniz, Marlene Ibanez, Marlene Mendes, Odilda Arguelho, Osvalda Medina, Paulina Colman, Sueli do Nascimento e Vicenta Portilho. Ana Chaparro, abriu uma empresa em sociedade com o marido, obteve um pequeno financiamento bancário e trabalha em casa.

Em 2005, a palha de jacarandá originou um chapéu, mas o material não podia umedecer nem receber muito sol. Pouco valorizado, não cobriu a mão de obra. O grupo decidiu buscar outras opções de aproveitamento. Pequenos engradados de carandá embalarão os tuiuiús, garças, capivaras e outros adornos fabricados por artesãos de Coxim e que serão comercializados antes e durante a Copa do Mundo de 2014.

Mercado é o ponto
Houve dificuldade em relação à visão de futuro e de mercado, até que o prefeito Nelson Cintra decidiu conciliar o social com o empresarial, levando o aprendizado do empreendedorismo às escolas municipais, do 6º ao 9º ano. Por meio do Projeto Sala do Empreendedor, do Sebrae, as mulheres aprenderam a emitir notas fiscais e a recolher o imposto de renda.

Os pontos principais de vendas ficam no Mercado Municipal do Produtor, cuja modernização completa um ano no próximo carnaval. “Aqui o visitante sempre encontra comidas típicas e artesanato das 5h da manhã às 23h”, diz a coordenadora do mercado, Joana Cristina Pereira.

Nessa longa jornada “sem feriado”, Joana Cristina supervisiona 21 lojas e também a feira popular ao lado, construída com apoio do Ministério da Agricultura. “Uma vez por mês nós promovemos festas com pratos típicos; outros produtos são ofertados com música ao vivo e sorteios; fica lotado!”.

Pequenos restaurantes e lanchonetes agora participam de licitações, têm CNPJ e fornecem para eventos municipais, estaduais e binacionais

“Parece Envernizado”

Vivian Bacha, coordenadora do Caranday

Da flutuação do talo e da folha as mulheres constroem uma embarcação, onde colocam seus sonhos rio abaixo; chama-se correnteza e mede 18 x 35 centímetros, explica a design Maria Saldanha, que junto com a colega Paula Bueno, ambas do Estúdio Buennas, assinam a coleção Terceira Margem. Elas trabalharam em Porto Murtinho graças ao Projeto Artesanias da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul. As oficinas duraram três meses.

Continuam explicando: “Lado a lado, mas em oposição, o carandá é entrelaçado, como uma embarcação; a fruteira faz da mesa o próprio rio; é a canoa, uma peça contemporânea de 35 x 50 cm (pequena) e 45 x 60 cm (grande) construída a partir do talo da folha e cujo formato retangular revela também a forma curva que se desprende da árvore e vai para a mesa, ganhando volume.”

Mesmo com a fragilidade dos amarrilhos, os conhecimentos transmitidos por elas permitiram melhorar os produtos com lixa e massa corrida. “Fica mais bonito, parecendo envernizado”, comenta Vivian Bacha.

Tal qual o pé de carandá, que aponta suas folhas para todas as direções, a fruteira ganha espaço na mesa com sua forma circular. O modelo pequeno mede 45 cm de diâmetro e o grande aproximadamente 60 cm. A arandela Pôr do sol evidencia a forma curva do talo da folha do carandá. A lâmpada por trás lembra esse fenômeno muito bonito em Porto Murtinho. A pequena mede 35 cm de altura e a grande 45 cm.

Diversificação anima mulheres
Há pouco mais de um ano, a Feira Regional de Artesanato, parte integrante do 6° Festival Internacional de Porto Murtinho, animou pequenos produtores e artistas fronteiriços. As artesãs belavistenses Celenir Pimentel e Eliane Ferna ndes apresentaram panos de prato bordados com fita, pintura em tecido, bordado em oitim (vagonite) e chinelos decorados, ampliando o espaço para a oferta desses produtos no mercado fronteiriço.

“Todos esses produtos ganharam mais visibilidade”, comenta a secretária municipal de turismo Vivian Cruz. Naquela ocasião, a artesã Maria Aparecida da Silva, de Miranda, expôs trabalhos feitos com argila e madeira, valorizando a fauna do Pantanal. De Nioaque vieram peças fabricadas por Rosemeire Cordeiro.

As professoras Ninfalina Fernandes e Liliana Paredes, ambas da Universidade de Asunción em Vallemi (Paraguai), trouxeram garrafas térmicas para água fria e água quente, guampas para tereré, camisas com bordados típicos e cestas feitas de mimbre (vime).

A variedade de doces e a culinária à base de peixe, tapioca salgada e doce, sucos naturais e bebidas têm agradado turistas brasileiros e estrangeiros, lembra Vivian Cruz. Ela destaca as festas gastronômicas e a importância da participação das mulheres: “Panqueca de sapalho (abóbora em guarani) com carne seca nos proporcionou o 1º lugar em prato salgado na 3ª Seleção Gastronômica de Mato Grosso do Sul e fomos o 2º em musse de bocaiuva com calda de caramelo, perdemos apenas para a Lalai Doces”, diz.

Serviço
Contato com o Grupo de Artesãs Caranday
Telefone 67 3287 4580
Rua Dr. Costa Marques nº 603 Centro
Porto Murtinho (MS)

Publicado em 02/02/2012
www.correiodoestado.com.br
Autor: Montezuma Cruz

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